quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

CARNAUBAIS DA MINHA INFÂNCIA XXV

 

Aos 12 anos de idade relembro com profunda tristeza o protesto da fome ocorrido em nossa antiga Carnaubais recém criada município, governava a municipalidade o seu segundo prefeito constitucional, João Teixeira Filho. Não lembro o dia, mas as primeiras horas da manhã, começaram a chegar os cidadãos agricultores rurais das mais diversas comunidades e começaram a se concentrarem em frente a sede da prefeitura municipal, era início do mês de  fevereiro do ano de 1.970, ainda não tinha chovido e por consequências os "patrões dos agricultores" que costumeiramente financiavam o plantio do algodão não tinham entrado em operação, pois ainda não tinha chovido. A fome começou a ocupar lugar nas residências dos frágeis camponeses carnaubaenses. Na época não existia nenhum tipo de transferência de renda nem políticas públicas sociais dos governos: Municipais, estaduais nem federal. Pois somente a partir do ano de 1.971, no governo ditatorial do general do exército brasileiro, Emílio Garrastazul Médici, é que veio ser criado o FUNRURAL, em que amparava os poucos  trabalhadores rurais que atingiam a idade dos 60 anos, que eram agraciados  com meio salário mínimo mensal. O fato passou a ser um alívio para para a grave crise social que vivia os camponeses varzeanos.


A pequena multidão foi aumentando, os famintos em busca de alimentos aguardavam em frente a sede da prefeitura municipal e da Câmara, uma solução por parte do prefeito municipal, aos poucos alguns moradores da cidade foram acolhendo alguns dos seus conhecidos e saciando a fome de alguns dos seus mais próximos. Pela primeira vez, vi conterrâneos desmaiarem de fome em plena praça central de nossa cidade. Aquele povo simples e humilde, não perdia a compostura nem apertado pela fome. Pois na cidade existia vários comércios abertos e mesmo assim não foram invadidos. Após esperarem por toda a manhã, somente por volta das 16:00 horas, foi que apareceu na sede da prefeitura o prefeito Teixeirinha, que ouviu os pleitos dos famintos e Liberou uma ordem para que fossem atendidos na padaria do Sr. Antônio da Loja, que os atendeu com uma quantidade em pães e açucar saciando momentaneamente fome dos irmãos camponeses. Também foi organizado um alistamento para a formação de uma frente de trabalho que pudesse melhorar as estradas vicinais do município.


Posteriormente com o prolongamento da seca, o governo federal abriu uma frente de serviço para a construção da estrada entre Ipanguaçu a Macau, em que muitos dos nossos agricultores trabalharam na construção dessa via rodoviária, no qual chamava-o de "cassaco".

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